RCL 40 _ Escrita, Memória, Arquivo

Ensaios

Anamnese e hipomnese: Platão, primeiro pensador do proletariado

Além de uma genealogia dos termos «anamnese» (enquanto produção mnésica individual) e «hipomnese» (retenção mnésica colectiva) que atravessa a história do pensamento ocidental e as diferentes áreas do saber — de Platão a Deleuze, passando por Marx, Freud, Foucault, Derrida, mas também Gilbert Simondon, Leroi-Gourhan ou Claude Bernard — Bernard Stiegler estabelece as premissas para a compreensão de um novo género de memória, fruto da amplificação e replicação serial dos dispositivos tecnológicos de memória (computadores pessoais cada vez mais ergonómicos e portáteis, aparelhos nómadas e sistemas de mapeamento imagético do mundo) que, numa dialéctica em devir, convergem para uma desindividuação tanto singular quanto colectiva, para uma desautorização e impotência desencadeadas por uma nova gramática da memória. Simultaneamente, este novo tipo de memória oriunda da contemporaneidade tecnológica e em trânsito entre a hipomnese e anamnese parece apontar também para um projecto de transindividuação filosófica: qual janela digital conectada ao rizoma da retenção colectiva para a contaminação dos mecanismos mnemotecnológicos de controlo por via de uma individuação singular.

A Memória Arquival e a Memória Figural

O nosso objectivo é o de apresentar uma semioticização da memória. Trata-se de estudar as marcas culturais em algumas das suas manifestações, mas abrindo um parêntesis sobre a memória do figural, dado que uma obra de arte possui a sua memória figural. Para tal, discute-se a estética lessingiana das artes do espaço e das artes do tempo, para reinstaurar o tempo nas artes plásticas. Como semioticizar o invisível, como tratar esse tempo invisível, essa «memória plástica»? Eis a questão à qual esta lição tentará responder.

Escrita, Memória, Arquivo

Cruzar estes três conceitos é partir de um subentendido que será preciso explicitar. A ligação da escrita à memória e desta ao arquivo baseia-se numa perspectiva primeira, a da relação entre orgânico e inorgânico. Por outro lado, a relação da memória à escrita tem sido por demais tratada na dimensão de interioridade/exterioridade que estes termos, só por si, permitem. O arquivo, entendido aqui como conjunto ou depósito de escrita e dos escritos, é também um legado, no sentido em que tem nele compilado o que extravasa a memória singular, a memória do vivido individual. As sociedades de escrita fabricam, todas elas, um arquivo como herança, na medida em que passa a ser património colectivo.

Os documentos digitais e o «Paradoxo de Roger»

A passagem para a era digital obriga a reflectir sobre a ontologia dos documentos num mundo em que mudam os seus suportes tradicionais e os seus modos de perenização, conservação e distribuição. Num outro movimento, o documento expande-se, englobando o que era da esfera do privado ou do efémero, colocando novos desafios a uma pragmática ética e jurídica.

Respigar na banalidade ou o devir imperceptível da citação

Numa progressão circular, tenta-se neste artigo demonstrar como a partir de um plano de banalidade (ou imperceptibilidade) é possível compor um outro plano, ontográfico (de escrita do ser unívoco ou do ser-texto), na imanência de uma afirmação não narrativa e hetero-autoral constituída por blocos textuais intuitivamente respigados (citações, inserções, implantes) de modo a estabelecer um novo tipo de enunciado. O devir imperceptível desses mesmos blocos efectua ainda, num só movimento de duplo sentido, um ritornelo, ciclo vicioso onde essa composição imanente devém (retorna), por sua vez, imperceptível e banal. Da banalidade à composição inaudita e volta, eis a vertigem que se tenta aqui instaurar para a inauguração da possibilidade de um autor arquipélago.

O Espaço do Arquivo: A Perversão da Memória

A história, o arquivo começa com o gesto de pôr à parte, reunir, transformar em «documentos» determinados objectos retirados do seu uso e alojados em lugares específicos, ou de condená-los ao esquecimento. O arquivo redistribui espacialmente a memória dos objectos. Ora, tal não se faz sem selecção, que é uma operação de exclusão. A tecnologia tanto pode facilitar a segregação como a integração. Discute-se aqui fundamentalmente a pertinência do conceito de interactividade no contexto dos museus, bem como o lado ambivalente da utilização da tecnologia que opera em termos de amplificação e de redução, de excelência (Rochlitz) ou de exclusão.

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