RCL 39 _ Fotografia(s)

Contaminações

A máquina telepática: Telepatia, psicofotografia, literatura

Ao mesmo tempo que surgem novas tecnologias que permitem a reprodução analógica do mundo real, na viragem do século XIX para o XX, surge também uma forma literária que procura simular a captação analógica da realidade psíquica. O monólogo interior rompe com os conceitos narratológicos tradicionais, substituindo a figura do narrador por um princípio mecânico e limitando o seu conteúdo ao fluxo ininterrupto dos pensamentos de uma personagem. Na forma literária do monólogo interior sedimentam-se, assim, angústias e cosmovisões próprias da época.

Mesmerismo, Fotografia, e Nathaniel Hawthorne

Mesmerismo e fotografia foram duas obsessões de Hawthorne, e os críticos empregam frequentemente estas práticas como metáforas para descrever a sua concepção do género «romance». Poucos salientaram, entretanto, que existe uma conexão intrínseca entre mesmerismo e fotografia no próprio trabalho de Hawthorne. J. Gill Holland aproximou-se um pouco mais ao sugerir que as especulações do escritor sobre a possibilidade de fotografar a alma podem ter sido inspiradas pelos estudos fisiológicos do século XIX, tais como os de Emil du Bois-Reymond, que concebeu as sensações como impulsos eléctricos. Uma conexão mais óbvia é que o mesmerismo transformou o corpo num medium óptico ao fornecer imagens com uma espécie de presença viva independente do corpo. Ao mesmo tempo que o dispositivo fotográfico se provou capaz de receber e armazenar informação que estava para além da percepção visual, o mesmerismo possibilitou o «segundo sentido», penetrando a aparência exterior das coisas; ao mesmo tempo que a fotografia permitia a proliferação de imagens espectrais, o mesmerismo fragmentou a identidade através da criação de personalidades divididas e duplos mesméricos. A obra de Hawthorne ilustra repetidamente estas ligações entre mesmerismo e fotografia e qualquer destas práticas surge como potencial ameaça à integridade e autonomia do indivíduo.

Representação da Mudança: A Construção do Etnográfico na Fotografia do século XIX

Neste ensaio irei explorar algumas vias pelas quais as fotografias passaram a ser consumidas como «etnográficas» ou «antropológicas» na segunda metade do século XIX, assumindo o representacional não só enquanto estratégia semiótica, mas também enquanto processo social. Nesse sentido, podemos considerar que a minha tese segue o trabalho de Alfred Gell sobre a antropologia da arte e a mudança de foco do «significado» para o «efeito», numa teia de relações sociais. A metodologia aqui seguida é eclética, combinando vários elementos. Em primeiro lugar, métodos clássicos micro-históricos de acumulação de arquivo, de forma a fundamentar a visão detalhada de questões de maior escala. Em segundo lugar, uma preocupação antropológica com as dinâmicas e o significado das relações sociais, tal como se manifestam através dos objectos. Quais são os espaços relacionais em que se operam essas relações? Por fim, será dada uma atenção especificamente antropológica em relação à forma «como as coisas são vistas» e como aquilo que é visto é entendido e utilizado, pois a visão é, evidentemente, uma prática social especializada.

A morte e a retina: Ficções optográficas no «fim‐de‐século» francês

Nas últimas décadas do século XIX, três escritores franceses recorreram ao topos científico do optograma como conceito nuclear para as suas narrativas sobre morte e revelação. Villiers de l’Isle-Adam termina o seu conto filosófico fantástico «Claire Lenoir» (1867-1887) com um assassínio selvagem que é inscrito no olho da protagonista que dá nome à história, e tanto o pouco conhecido conto policial «L’Accusateur» (1897), de Jules Claretie, quanto a aventura de ficção científica de Jules Vernes <em>Les frères Kip</em> (1902) imaginam um crime a ser solucionado por uma fotografia inscrita no olho da vítima – que funciona como uma câmara fotográfica que revela a «foto-grafia» química no olho. Ao combinar as descobertas no campo da óptica de cientistas como Willy Kuhn e Franz Boll com a obsessão do «fim-de-século» com o limiar entre a vida e a morte, Villiers, Verne, e Claretie exploram as implicações epistemológicas da fotografia corpórea. Como pode a luz exterior combinar-se com o corpo humano para criar uma imagem que pode ser revelada? O que pode essa imagem dizer-nos acerca da realidade? Que confiança podemos depositar na nossa matéria corporal enquanto testemunha do mundo visível?

Neste ensaio, são explorados os efeitos figurativos e filosóficos da imagem retiniana nas ficções de Villiers, Verne, e Claretie na sua relação com a fotografia. A tese central é a de que as características que na época contemporânea são associadas à fotografia – o potencial mimético, a manipulabilidade, o limar entre vida e morte – estavam já inscritas, no «fim-de-século» francês, na anatomia do olho humano, o que desemboca num questionamento radical das fronteiras entre a objectividade e a subjectividade, entre a observação física e a «visão» fantástica».

Fotografia e paisagem: O explícito e o oculto nas representações fotográficas

A imagem fotográfica fornece pistas e informações precisas acerca do tema registado e essa possibilidade teve papel decisivo enquanto processo de conhecimento e instrumento de preservação da memória. No entanto, nada nos impede de ultrapassarmos a barreira iconográfica. Sua face visível é o limite externo de uma história a ser desvendada; trata-se dos factos que guarda dentro de si, além da imagem, factos que não se mostram. As imagens fotográficas são codificadas formal e culturalmente, são construções técnicas, culturais, estéticas e ideológicas que devemos desmontar para compreendermos como se dá essa elaboração, como, enfim, seus elementos constituintes se articulam.

Interessam-nos de perto os cenários das grandes cidades, assim como o dos vilarejos e mesmo os do campo; são paisagens urbanas e rurais sempre instigantes pelo que não revelam explicitamente. Desenvolveremos as reflexões que se seguem tomando como exemplo o Estado de São Paulo (capital e interior), na passagem do século XIX para o XX, período em que inicia sua grande expansão, com o propósito de recuperarmos micro-histórias a partir de imagens de diferentes objectos que se inter-relacionam.

As «fotografias do avô»: Notas sobre fotografias, a sua acção e substância

Este texto aborda a relação entre pessoas e fotografias como uma forma de relação social, argumentando que as fotografias podem ser tomadas como índices da acção de outrem, Partindo da noção de Gell de «nexus da arte», o texto explora a necessidade de ultrapassar a questão da fascinação como processo mental, ancorando as práticas relacionais entre pessoas e coisas sob a noção de «plexus» da arte.

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