RCL 39 _ Fotografia(s)

Ontologia

A Câmara Clara: Outra pequena história da fotografia

Todos os que se preocupam em providenciar um modelo histórico para a fotografia encontram uma série de problemas metodológicos. As peculiaridades da fotografia— a sua replicação fiel daquilo que vê, a sua articulação simultânea com passado, presente e futuro, a sua capacidade de infinita reprodução e alteração de forma, o número infinito dos seus produtos — representam um desafio histórico insolúvel. Implodindo a relação entre real e representação, a fotografia foi descrita por Barthes como uma «revolução na história antropológica do homem», «um tipo de consciência sem precedentes».

Como se escreve então a história da «consciência»? Como escrever a história de algo que escapa a uma fácil definição, que não tem limites definidos, e opera sobre o princípio da reflexão? Como incorporar os múltiplos modos pelos quais a fotografia foi usada e compreendida pelo mundo for a, bem como as diferentes fotografias que circulam dentro da nossa cultura?

O que pretendo aqui defender é que uma das formas de entender uma tal história é a pequena história da fotografia que Barthes elabora em </em>La chambre claire</em>. O meu artigo sustenta que existe de facto uma politica fundamentada em <em>La chambre claire</em>, e que pode ser encontrada na forma como Barthes lida com a história; eu proponho, neste sentido, que <em>La chambre claire</em> deveria ser lida não tanto como um ensaio teórico, mas como uma história da fotografia — ou mesmo como uma história acerca da fotografia.

A Fotografia, a Modernidade e o seu Segredo: Antes e Depois de Barthes

Neste texto tentaremos mostrar de que forma a narrativa disfórica em torno da fotografia, que caracterizou a tomada de consciência das propriedades do medium a partir sobretudo dos anos 30 do século XX, parece estar ausente da sua recepção inicial. Veremos como se foi dando essa passagem de uma concepção progressista da fotografia, centrada no espanto pela revolução tecnológica que lhe subjaz, para uma concepção mais necrófila, que vê na fotografia um dispositivo mortífero. Percorrendo um conjunto de textos paradigmáticos da teoria crítica da fotografia, procuraremos evidenciar de que modo a fotografia constituiu um objecto discursivo propício à intersecção de algumas das questões centrais (e traumáticas) da cultura moderna, servindo, assim, obliquamente, de pretexto para um pensamento não apenas da fotografia como da experiência desses mesmos traumas.

A síndrome de Bartleby e a fotografia de família

A contemporaneidade tem valorizado o objecto fotográfico vernacular e os discursos privados e heterogéneos que se lhe associam, alertando para a complexidade desses objectos cuja compreensão se afasta da evidência mimética ou factual operada pelo medium fotográfico. Uma complexa rede de intenções e significados é associada à fotografia privada, representações capazes de proporcionarem identidade e reconhecimento sociocultural. O carácter pungente e a inevitabilidade de um retrato fotográfico parecem-nos próximos de uma personagem da literatura oitocentista: Bartleby. Procuraremos suavizar essa inevitabilidade barthesiana assumindo a «não-resposta» dessa personagem literária como motivadora da participação e responsabilidade do leitor. Se Bartleby se aproxima do fotográfico, precisamente, na reprodutibilidade do discurso e inevitabilidade da morte, afirmamos que a fotografia permanecerá fixa e inalterável, mostrando sempre a mesma coisa, se não for acolhida, demoradamente percorrida e resgatada ao esquecimento. Ao olhar mobilizado e diligente sobre uma fotografia corresponderá, ainda, um movimento reflexivo e pensamento humanos. Sendo assim, o (re)conhecimento de uma imagem define-se através de um permanente jogo de montagem operado pelo sujeito, com base numa herança já adquirida e na sua actualização enquanto modo de sobrevivência, passagem e continuidade da imagem.

Imagens de lamentação, imagens lamentáveis?

Imagens da lamentação, imagens lamentáveis? Em que pé estamos hoje? As técnicas da imagem sofreram uma enorme evolução, a sua circulação multiplicou-se de maneira vertiginosa e a escala de indiferença dilatou-se por isso ainda mais. Mas o debate de fundo continua inalterado. Quanto mais a actualidade se mostrar espectacular e intrusiva, mais ela suscitará na maioria dos espectadores um recuo de indiferença e um sentimento de «virtual»; quanto mais as vítimas atulharem a informação, mais fácil se tornará a amálgama entre o civil assassinado e o ferido num acidente de viação, isto é, o descartar de qualquer análise política; quanto mais a câmara se aproximar de um corpo de dor, mais obscena se tornará a sua captura pelo grande plano; quanto mais se quiser enquadrar a singularidade, mais se esquecerá o «fora de campo» da história, que é a mais manifesta forma de perder a singularidade; quanto mais se quiser fazer imagens, mais se fabricarão ícones. Neste artigo pretende-se abordar criticamente alguns dos clássicos da teoria da fotografia, como Barthes e Sontag, evidenciando a forma como por vezes reduzem, de forma simplista, as «imagens da lamentação» às estratégias encenatórias, revelando por vezes essa atitude de «indiferenciação» perante imagens de forte carácter político e que são, num certo sentido, «inolháveis».

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