RCL 32 _ Ficções

Ensaios

Ficção e representação

Explora-se a relação entre representação e ficção, no quadro de um cognitivismo do como se. A ficção é compreendida como um caso especial de descomprometimento ontológico, o que qualifica a capacidade de representar humana (a Vorstellungskraft clássica) como algo diferenciado, quer da consciência animal, quer da representação funcionalmente entendida (no caso da máquina inteligente). A verosimilhança é igualmente confrontada com a ficção, sublinhando-se o alcance maior desta no eixo do tempo, mas ao mesmo tempo a operacionalidade racional desta na restrição e controlo do descomprometimento ontológico próprio da ficção. Aristóteles decobriu na sua Poética como a verosimilhança era ingrediente essencial da ficção dramática, se é que se pretende salvaguardar o efeito estético.

Ficção e realidade

Partindo da distinção entre o mundo real e o mundo imaginário da representação discursiva, em função da sua abertura vs. completude, assim como da avaliação da sua poeticidade, este texto procura mostrar que é só na natureza interlocutiva do discurso que podemos encontrar o critério para a distinção entre discursos sobre a realidade e discursos de ficção. O autor adopta, por conseguinte, o ponto de vista segundo o qual, embora o discurso seja sempre construção de representações do mundo, os discursos de ficção distinguem-se dos discursos sobre a realidade, não em função da sua forma textual, mas em função de pressupostos enunciativos ou de protocolos implícitos que constituem uma espécie de contrato entre interlocutores.

Parentescos entre ficção e real: O caso do cinema

Começando por analisar as afinidades entre ficção e real, o artigo passa em revista algumas teorias que, desde Aristóteles, pensam essa relação de modo não naturalista. São fundamentos necessários, numa época marcada por uma sobrecarga tanto de imagens como de real, e por alguma desconfiança em relação a ambos. No cinema, estas questões colocam-se e recolocam-se de forma muito rica, desde pelo menos o início do documentário: embora muitas vezes pareça que, no cinema, a alternativa é ou o real ou o realismo. Debatem-se aqui alguns marcos desta discussão, procurando desconstruir esta falsa dicotomia e conhecer as cumplicidades e as diferenças entre as atitudes ficcional e documental.

A ficção como exutório

Este ensaio discorre sobre a relação entre a escrita ficcional e a emoção, recorrendo ao exemplo da obra do novelista japonês Shusako Endo. O autor pergunta-se sobre a capacidade redentora do fascínio ficcional com a monstruosidade da vida, procurando uma solução diversa da que caracteriza o misticismo cristão de Endo. A paga emocional da ficção novelesca é permitir-nos olhar para o abismo da desrazão, ficando mais capazes de nos conformarmos com ele. O exutório como técnica simbólica (tanto no ritual, como na ficção, como ainda no humor) é um modo de matar e morrer sem perder vida. Dessa forma, ao libertar energias reprimidas, a ficção proporciona enorme prazer e exercita as emoções.

Quatro teorias da interpretação

As teorias da interpretação dividem-se em quatro tipos, dependendo de qual consideram ser o lugar do significado: a Desconstrução, o Formalismo, o Intencionalismo e a Recepção do Leitor. Cada teoria contém alguma verdade. Como indica a Desconstrução, o significado não é o tipo de coisa que possa estar em qualquer lugar. Como sugere o Formalismo, o melhor testemunho para aquilo que o texto significa é o próprio texto. Como sugere a Recepção do Leitor, a comunicação bem sucedida depende da compreensão do leitor. A melhor teoria parece ser uma teoria moderada da Intenção do Autor, que identifica os locutores reais como os originadores do significado, mas também reconhece a existência de autores ideais e hipotéticos.

Crítica de uma certa ficcionalização do controlo

Periodicamente, a vigilância emerge com uma intensidade dramática enquanto categoria da cultura contemporânea. Os diagnósticos já canónicos de Foucault e Deleuze, segundo os quais teríamos passado da «soberania ao «panóptico», e daí para o «controlo», pressupõem um certo evolucionismo, com dispositivos cada vez mais generalizados e disseminados de dominação. A ficção, em particular o cinema, não é alheia nem a esta tendência nem ao respectivo diagnóstico: mostrando repetidamente cenários de uma conexão técnica total, permite-nos contudo perceber, apesar desse evolucionismo latente, a importância da categoria da «biopolítica» na compreensão e crítica da técnica contemporânea.

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