RCL 31 _ Imagem e vida

Reflexões

Um virtual ainda pouco virtual

Um estranho e obscuro objectivo parece adivinhar-se nos mais entusiásticos discursos sobre os progressos das novas tecnologias: criar um novo mundo, um novo real e uma nova vida, sem falhas, asseptizados e puros. No limite, até a máquina será abolida, integrando directamente, sem mediações, o corpo e a vida orgânica no mundo virtual. Contudo, a simulação deste mundo concebido segundo a digitalização da imagem exige a eliminação do aleatório e do criativo, isto é, um ser não desejante. Ilustrarão estes traços do virtual tecnológico as propriedades do «virtual» deleuziano ou, pelo contrário, falta à imagem digital das tecnologias da informação um pouco mais de «virtual-transcendental»?

A imagem pode matar?

Com o ano 2000, o triunfo do Ocidente cristão através da hegemonia do seu calendário, mas, acima de tudo, através do reino por este introduzido, o da imagem. A 11 de Setembro de 2001, o maior dos golpes a este império do visível. O criminoso iconoclasta apresentava em grande estilo o seu perfeito conhecimento e a sua total conformidade ao mundo que destruía: aquele no qual ninguém recusa hoje ver na imagem o instrumento de um poder sobre os corpos e os espíritos. Mas conduzirá a imagem ao crime, será ela responsável? Pode ela ser tomada como sujeito e, por isso, responsabilizada por si só?

O toque do desconhecido

Segundo a concepção dominante, o desenvolvimento e proliferação de uma cultura da imagem virá engrandecer o nosso conhecimento e consciência do mundo, criando novas formas de sociabilidade e proporcionando-nos acrescida protecção dos perigos do mundo. Sob esta aparência revolucionária não se esconderá uma restituição de um provilégio dado à visão que, sendo o mais distanciador dos sentidos, serve como escudo contra a assustadora proximidade imediata do mundo do contacto? Recusamos o toque do desconhecido, mas aceitamos a mobilização tecnológica da visão que nos permite aceder a uma versão asséptica desse mesmo desconhecido.

Da vida das imagens

Apesar da ideia corrente, segundo a qual vivemos crescentemente numa «civilização das imagens» e numa «cultura visual», há sinais claros de que a nossa era estará, possivelmente, a assistir ao seu fim. A fantasmagoria do presente acomoda-se mal à ideia de imagem (daí o retorno da temática do simulacro) do mesmo modo que a nossa experiência de espectadores se afasta, cada vez, mais, de uma experiência puramente visual. As imagens adquirem qualidades da presença, e a percepção aproxima-se, em alguns casos, de uma experência alucinatória. Uma tal experiência indica uma proximidade inquietante entre a imagem e a vida.

Caos no "campo total" de visão

De finais da década de 20 a meados da de 60, a psicologia procurou investigar experimentalmente o Ganzfeld, ou «campo total» de visão, a partir da presumida condição mais simples e englobante de visão: luz branca atingindo a totalidade da retina. As repetidas anomalias relatadas, ainda que defraudando os esforços de análise estritamente científica, abrem todo um campo de especulação filosófica sobre as condições de emergência e de autonomia dos sentidos. Devedor das intuições deleuzianas sobre a pecepção, este artigo empenha-se nessa tarefa.

Olhando o olhar no retrato

Como pode a exterioridade do retrato convocar a interioridade do sujeito e produzir a sua identidade? Assumindo que o punctum do retrato é o olhar, nele centra-se toda a finalidade do retrato enquanto apresentação do sujeito e nele reside o desafio colocado ao espectador: olhar um olhar é perscrutar-lhe o indecidível universo interior, observar o que ele transporta de dentro para fora, o que desvenda. Aí se instaura uma espécie de traço distintivo «humano». Esvaziando o olhar, deslocando o punctum, desantropomorfiza-se o corpo e des-subjectiva-se a figura, que assim se desumaniza, como em O Grito de Münch, ou é elevada ao estatuto divino, como nalgumas representações do Ecce Homo.

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