RCL 30 _ Pop

Ensaios

A vida heróica e a vida quotidiana

Se a vida quotidiana é usualmente associada às rotinas mundanas, seguras e de senso comum que sustentam e mantêm o tecido das nossas vidas diárias, a vida heróica aponta para as qualidades que se lhe opõem. Aquilo que é tido por garantido no dia-a-dia significa a necessidade de sujeitar as nossas actividades ao conhecimento prático e a rotinas cuja heterogeneidade e falta de sistematicidade raramente são teorizadas, enquanto a vida heróica aponta para uma vida ordenada, formada pelo destino ou pela vontade, na qual o quotidiano é tido como algo que deve ser combatido, algo a subjugar na busca de um propósito mais elevado. Neste artigo não só se ensaia uma definição de ambos os conceitos como, acima de tudo, se procura demonstrar que a ascensão do pós-modernismo e a valorização das culturas populares e de consumo obrigam a uma reavaliação das relações entre os dois conceitos.

Uma arte bem instalada

A obra de arte passou a incluir elementos que lhe eram, pelo menos para o modernismo, antitéticos, o que é particularmente visível na sua relação ao dinheiro. Esta tendência tornara-se clara já nos anos 60 com a pop art, obcecada com a «comunicação» e, acima de tudo, pelo dinheiro como «fetichismo» terminal, mas a sua relação explícita a estes era então ainda exterior à obra. Na situação actual de economia generalizada perde nitidez a distinção entre objectos de arte e outros objectos, entre actos artísticos ou outros, não ficando incólumes nem os procedimentos, nem as estratégias comunicacionais, nem o dinheiro. Mesmo as análises de Marx que garantiam a «universalidade do valor» pelo dinheiro precisam de ser revistas. Boa parte do que hoje se denomina como «pós-modernismo» artístico é basicamente um extremar da pop que se pode denominar por «neo-pop», e que se caracteriza menos pela alusão permanente aos objectos da vida quotidiana, ou aos procedimentos correntes dos media, do que à exorbitação da estratégia da pop, fazendo de tudo matéria trabalhável, ou seja, imagem, tudo servindo para «extrair» dinheiro, ou fama, ou poder.

Pop philosophy: Uma aproximação ao pensamento de David Hume

O objectivo principal do texto é a analise de uma afirmação que Gilles Deleuze formula a respeito do pensamento de David Hume (1711-1776) onde, de forma explicita, o categoriza como uma «filosofia pop». A afirmação parece estranha em todos os sentidos, não somente quando aplicada ao pensamento de David Hume, que historicamente dista em muito do epíteto, mas também porque o sufixo não parece em nada caber a qualquer obra filosófica. Assim, e em detrimento do pensamento de Deleuze, adentramo-nos na obra de David Hume, seguindo pressupostos exauridos da mesma, para tentar conformar um sentido possível, nunca definitivo, para que esta possa ser tematizada, categorizada, ou melhor, perspectivada, como uma «filosofia pop». Desta forma seguimos de perto os dois sentidos que a palavra inglesa assume, o de ruído estrondoso e o de mote económico que permite referir qualquer elemento do «popular». É por essa razão que recorremos a Lawrence Alloway e a Arthur Danto. A (in)conclusão do texto tem uma matriz intencional, pretende dar voz a David Hume para que seja ele a determinar-se a si mesmo.

A contracultura: O ponto vazio no ciclo da cultura ocidental

Ontologicamente, a experiência da cultura não é pertença a uma forma certa da vida, razão pela qual seria um enorme erro tomar a contracultura como simples subversão de um esquematismo cultural. A cultura manifesta-se na invenção de uma deslocação capaz de retirar aos objectos a sua evidência plástica. Então, a cultura só aparentemente é ameaçada pela voracidade do novo. A contracultura valoriza o fascínio pela qualidade indefinível que habita os objectos do mundo quando, paradoxalmente, eles estão mais distantes do brilho e da novidade presentes na criação radical das formas, que seriam o gesto privilegiado pela Estética ocidental. Consequentemente, deveremos ultrapassar as teses que lêem a contracultura como expressão de uma distância face à cultura continental. A contracultura será antes a convocação da tradição cultural a um espaço que lhe é impróprio; não significa arrancar o sujeito à cultura, mas antes trazer ambos, sujeito e cultura, a uma mobilidade inédita. O livro de Theodore Roszak, The making of a counter culture, tem o mérito de reflectir claramente esses contextos, deles dando um relato preso entre o misreading da imediaticidade dos acontecimentos e a sua perspectivação errática, capaz de revelar a fragilidade de uma ideia de cultura fundada em oposições geracionais. Este livro merece ser relembrado como testemunho de um momento alto da expressão da dor no interior da crise da experiência.

Globalização e consumo: Reavaliando o conceito de audiência. O caso das (sub)culturas juvenis

Pretende-se com o presente artigo reflectir em torno do processo de globalização e dos seus efeitos na forma de pensar a comunicação nas sociedades contemporâneas. Particularmente na sua vertente cultural, a globalização apresenta uma dupla influência na estruturação dos fenómenos comunicacionais: por um lado, na forma de produzir/reproduzir um determinado conteúdo cultural; por outro lado, na forma de consumir/apropriar esse mesmo conteúdo. Esta dupla influência leva-nos, em primeiro lugar, a conceber a produção e o consumo cultural de um modo simultaneamente global e local, em segundo lugar, e consequentemente, a reavaliar o papel da audiência no processo comunicacional. Finalmente, toma-se o caso exemplar das subculturas juvenis para avaliar o alcance e o significado da globalização cultural.

A realidade do avesso: A questão da fronteira na obra de Philip K. Dick

A obra de Philip K. Dick, não tendo sido directamente influencida pelo trabalho de Humberto Maturana e de Francisco Varela, é consistente com as suas análises sobre a relação entre sistema e observador. Mais concretamente, a luta pela aquisição de um estatuto autopoiético pode ser entendida como uma disputa de fronteira em que cada um reclama a posição privilegiada de «exterior», ao mesmo tempo que obriga o seu oponente a tomar a posição «interior» de componente alopoiético. Dick compreendeu que o modo como são constituídas as fronteiras seria um elemento central na decisão acerca daquilo que deve ser considerado como vivo no final do século XX. Especialmente reveladoras são as novelas que escreveu entre 1962 e 1966, onde se inclui uma série de obras maiores que procuraram definir o que é o humano. Inspiradas na literatura científica da cibernética, e tendo como pedra de toque aquilo que neste texto é chamado «andróide esquizóide», as narrativas de Dick fazem com que esta análise tenha de ser alargada, na medida em que põem em cena ligações entre a cibernética e um vasto leque de outras preocupações, incluindo uma devastadora crítica ao capitalismo, uma perspectiva das relações entre sexos que liga as mulheres aos andróides, uma ligação idiossincrática entre entropia e delírio esquizofrénico, e uma persistente suspeita de que os objectos que nos rodeiam - e até a própria realidade - são ilusões.

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